“Falae, truta!”
De acordo com um estudo da Fundação Oswaldo Cruz*, os homens costumam associar consultórios médicos com um lugar de crianças, mulheres e idosos. Concordo em parte com essa declaração, mas não é dela que eu pretendo falar, e sim de um fato inusitado que acontece sempre que preciso pisar em um consultório.
A parte em que concordo é que realmente eu vou pouco ao consultório e sempre que vou a maioria são crianças, mulheres e idosos. Mas isso não é culpa minha, claro.
Porém, entretanto, todavia, por alguma razão que desconheço, eu desperto 2 reações diferentes nos médicos e 1 reação apenas nas médicas. E já afirmo de cara que nenhuma delas é sexual.
As médicas me tratam bem, com respeito e tudo mais. Acho ótimo, até me sinto confortável para responder perguntas desconfortantes que elas fazem, dependendo do motivo que estou lá.
Mas os médicos, ou me tratam com total indiferença ou tentam igualar a idade deles a minha. Os que me tratam com indiferença deixam um recado subliminar: “o que diabos você está fazendo aqui. Consultório é lugar de crianças, mulheres e idosos, seu verme desprezível. Só por isso eu vou tratar indiferente!”.
Já os que tentam igualar a idade, bem… eram por alguns anos… para menos. Como foi que aconteceu hoje, as 8 da matina.
Ele: falae, cara, tudo numa “nice”?
Eu: Ahn?
Ele: Qual é o problema, truta?
Eu: O quê?
Ele: Ih, olha aí, tá lendo um livro! Deixa eu ver quem é!
Eu: Ahn… ok
Ele: Charles Bu… Bukwsf… como se fala esse sobrenome?
Eu: Bukowski.
(alguns segundos de silêncio)
Ele: Bem, qual o problema?
Eu: Meu ombro esquerdo.
Ele: Hmmmm vamos tirar a sua pressão.
Eu: Mas é o meu ombro que…
(Começa a medir minha pressão)
Ele: Olha aí, campeão! Pressão impecável! Tá tudo em cima!
Eu: Mas e o meu ombro?
Ele: Ah, sim, sim. Vamos tirar um raio-x dele. E do direito, para comparar, ok?
Eu: Ótimo!
Ele: Mas e ae, fazendo cursinho?
Eu: Não, já sou formado.
(Alguns segundos de silêncio)
Eu: Sou professor…
(Começa a abrir um pequeno sorriso no rosto dele)
Eu: … de Geografia.
(Some o sorriso)
Ele: Nunca fui bom em Geografia. Sempre fui melhor em Matemática. Bem, aqui está. Leve este papel até a sala de raio-x.
(nos levantamos de nossas respectivas cadeiras)
Eu: Obrigado
Ele: De nada!
(dá um tapinha nas minhas costas)
Ele: Sabia que com essa barba você tá parecendo um jogador do Fluminense que…
*Fonte dessa informação: Revista Super Interessante de agosto, 2009.
É o nivel dos nossos profissionais.. hehe
Ser menosprezado no Brasil é uma prática quase que sacramentada pelos doutores da saúde. Até bem pouco tempo atrás eram os donos da nossa saúde, agora com internet e fácil acesso às informações, se sentem ameaçados. Talvez essa seja uma das mil razões do desprezo por parte dos médicos do Brasil varonil.
Eu acho que não é algo exclusivo dos profissionais de saúde, mas uma questão de autoridade e poder. As pessoas acham que por ter um diploma, um consultorio, um escritório, um senado, etc e que detêm o poder de decidir sobre as pessoas acabam por menosprezar os outros seja lá quem forem.
Mais um comentário a acrescentar é a falta de respeito pela profissão do educador.